O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band no domingo, 23 de agosto, deveria inaugurar oficialmente a temporada de confrontos entre os candidatos. Em vez disso, acabou funcionando como uma espécie de demonstração prática de como a política brasileira consegue transformar um evento eleitoral em conteúdo para redes sociais enquanto o eleitor permanece ocupado com qualquer outra coisa.

Dos seis candidatos convidados, apenas três participaram: Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos. Lula e Flávio Bolsonaro não compareceram, e Romeu Zema desistiu na última hora. O resultado foi um debate esvaziado justamente pela ausência dos nomes que estão no centro da disputa presidencial.

Na medição de audiência em tempo real, a Record registrava 4,28 pontos com a entrevista de Lula, enquanto a Band marcava 2,06 pontos com o debate.

Enquanto a Band colocava três candidatos diante das câmeras, Lula e Flávio, ausentes do debate, continuavam sendo os principais personagens da noite.

Renan Santos foi quem mais produziu barulho entre os candidatos presentes.

Sua estratégia era bastante clara: transformar sua participação em material para a internet. Levou fraldas com os nomes de Lula e Flávio, atacou os dois e adotou uma linguagem agressiva e provocativa, claramente adequada à produção de cortes, memes e conteúdo para seu público.

Ele conseguiu atenção, mas que tipo de atenção?

Uma análise da Palver mencionada na repercussão pós-debate registrou 38% de menções favoráveis a Renan, 35% neutras e 27% negativas.

Traduzindo para o português: ele teve praticamente a mesma quantidade de gente dizendo “legal” e “tanto faz”, além de uma parcela considerável que continuou sem simpatizar com ele.

O dado mostra que Renan conseguiu provocar reação. Isso é diferente de conquistar aprovação.

Ele ganhou exposição. Mas transformar exposição em vantagem eleitoral são coisas distintas.

Renan já possui uma audiência digital politicamente engajada. Um debate recheado de provocações, ataques e momentos desenhados para virar corte naturalmente alimenta esse público. O problema é saber se a mensagem furou sua bolha, mas, ao que tudo indica, não.

O Google Trends oferece uma pista interessante sobre isso. Depois do debate, Lula chegou a 100 pontos de interesse de busca. Augusto Cury chegou a 58. Renan Santos, 53. Flávio Bolsonaro, 35. Ronaldo Caiado, 23. Romeu Zema, 9. O Google Trends mede interesse de busca, não intenção de voto ou aprovação. Mas o dado mostra uma coisa importante: Renan não foi o maior fenômeno de curiosidade da noite entre os candidatos presentes. Cury ficou à frente dele.

Augusto Cury apareceu com um discurso moderado, discutiu educação e tentou se apresentar como uma alternativa à polarização. Chegou a considerar não participar por causa das ausências de Lula e Flávio, mas voltou atrás pouco antes do início do programa.

Depois do debate, suas buscas superaram as de Renan.

Isso pode indicar simplesmente curiosidade. Mas curiosidade é justamente uma das primeiras coisas que um candidato pouco conhecido precisa conquistar.

Em uma campanha eleitoral, fazer alguém procurar seu nome pode ser mais valioso do que fazer alguém compartilhar um vídeo porque achou uma frase engraçada.

Renan conseguiu produzir reação, mas Cury produziu curiosidade.

Enquanto os três candidatos presentes tentavam disputar espaço no palco da Band, Lula registrava o maior volume de buscas entre os nomes envolvidos, chegando a 100 pontos no Google Trends. Sua entrevista na Record alcançou mais que o dobro da audiência da Band.

É uma posição bastante confortável para quem não precisou dividir o palco com ninguém. Já a situação de Flávio é mais complexa.

A estratégia dele foi concentrar o confronto em Lula, evitando participar de um debate sem seu principal adversário.

Politicamente, há uma lógica nessa decisão. Se a eleição está se desenhando como uma disputa entre Lula e Flávio, tratar candidatos que aparecem muito abaixo dos dois nas pesquisas como adversários equivalentes significa dispersar energia e espaço de comunicação.

O próprio debate forneceu combustível para essa tese. Renan, Caiado e Cury falaram de Flávio mesmo sem ele estar presente.

Ainda assim, Flávio precisa ampliar reconhecimento e conquistar eleitores que não estão necessariamente dentro do núcleo bolsonarista. Para Lula, que já tem seus eleitores fiéis, faltar a um debate pode ser menos custoso. Para Flávio, cada oportunidade de exposição pode ter valor adicional.

A estratégia pode ser racional do ponto de vista da disputa Lula x Flávio. Mas tem um custo: deixar o palco vazio significa deixar também espaço para que outros candidatos definam a narrativa sobre você.

Neste caso específico, porém, colocando os fatores na balança, acredito que Flávio tenha ganhado mais do que perdido. Afinal, ele foi um dos principais alvos do debate mesmo estando ausente, enquanto os candidatos que compareceram continuaram muito distantes do centro da disputa eleitoral.

Caiado fez o papel do político tradicional. Compareceu, debateu, apresentou propostas e criticou os adversários ausentes.

Mas o desempenho institucional não se transformou em grande fenômeno. No Google Trends, Caiado ficou em 23 pontos, muito atrás de Cury e Renan.

Fazer um bom debate e fazer um debate que tenha engajamento são habilidades diferentes. E esse primeiro debate nos mostra a importância das redes sociais na propaganda política atual.

Caiado pode ter sido mais institucional. Mas institucionalidade não gera interesse.

E então chegamos ao verdadeiro protagonista da noite.

Enquanto os candidatos discutiam segurança pública, economia, Lula e Flávio e os rumos do país, Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Caiado, foi flagrado dormindo. A cena rapidamente ganhou repercussão. Kassab negou que estivesse dormindo e afirmou que estava usando o celular para interagir com eleitores.

Exatamente como meu avô fazia quando caía no sono assistindo à televisão. Eis a síntese perfeita da noite. Os candidatos tentavam produzir frases históricas. Renan produziu cortes para viralizar entre seu público. Cury produziu frases de efeito.

Caiado sintetizou a chatice da velha política. Lula estava em outra emissora. Flávio estava ausente. Zema seguiu esquecido. E Kassab dormiu. Foi justamente esse o momento que conseguiu escapar da lógica tradicional da propaganda política e virar conteúdo espontâneo nas redes.

E talvez esse seja o retrato mais honesto do primeiro debate presidencial de 2026: muita repercussão dentro das próprias bolhas, pouca audiência na televisão e, até aqui, nenhum sinal claro de impacto eleitoral relevante.

Mas, afinal, quem foi o vencedor? Os grandes vencedores foram aqueles que não assistiram ao debate. Quem desligou a televisão e foi dormir provavelmente fez o melhor negócio. Kassab, pelo menos, já estava praticando.

Tay Pellegrini – Mãe, esposa e empresária.
Graduanda em Ciência Política, analista política, comentarista de política e geopolítica e colunista do Relevante News.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like

“Não vai dar em nada” – o ritual do deboche em todas as lutas

Toda grande mobilização popular carrega um ritual previsível: primeiro é ignorada, depois…

A nova ditadura está entre nós — e muitos ainda aplaudem

Chegamos novamente ao ponto de não retorno. Quando o povo já está…

Lula, corrupção e marketing político: A verdade sobre a eleição que mudou o Brasil

O retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil…

EUA: a formação de um Estado cristão

Todos sabemos que diferentemente do Brasil os valores americanos foram calcados no…