Terrorismo: como o crime organizado capturou a política latino-americana e chegou ao Brasil
Em 28 de maio de 2026, o secretário de Estado americano Marco Rubio anunciou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) serão oficialmente incluídos na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras dos Estados Unidos. Entre as consequências imediatas estão o congelamento de ativos, sanções econômicas amplas e restrições migratórias. A longo prazo, a medida abre caminho para cooperação militar direta entre os dois países.
A decisão não caiu do céu. Dois dias antes, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, seu irmão Eduardo Bolsonaro e o jornalista Paulo Figueiredo Filho estiveram no Salão Oval, reuniram-se com Donald Trump e depois com o próprio Rubio. O pedido foi feito pessoalmente durante a reunião. A resposta veio em 48 horas.
“Enquanto o Lula vai de joelhos implorando para o presidente Trump não considerar facções criminosas como terroristas, eu faço o contrário. E foi isso que eu pedi”, declarou Flávio.
O governo Lula tentou evitar a classificação até o último momento. Não conseguiu. E agora está em uma posição delicada.
O que a classificação significa na prática
A designação como Organização Terrorista Estrangeira (FTO, na sigla americana) é um instrumento jurídico com efeitos imediatos e alcance global.
Ela permite o congelamento de qualquer ativo que transite pelo sistema financeiro americano, autoriza sanções contra indivíduos e empresas que façam negócios com as organizações, cria restrições migratórias severas para membros e colaboradores e abre caminho para ações militares americanas. Foi exatamente essa classificação que pavimentou a captura de Nicolás Maduro em operação americana em janeiro de 2026.
O Departamento de Estado foi direto em seu comunicado: “O PCC e o CV são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntos, comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis brasileiros. Sua influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e até nosso país.”
Os números americanos reforçam a dimensão transnacional: o FBI identificou células do PCC e do CV em 12 estados dos EUA.
PCC e CV: crime organizado ou poder paralelo?
A resistência jurídica do governo brasileiro tem um fundamento técnico: pela legislação nacional, a lei antiterrorismo exige comprovação de motivação política com objetivo de desestabilizar o Estado democrático. PCC e CV, argumentam os juristas do Planalto, são organizações criminosas com fins econômicos, não políticos.
O argumento é juridicamente aceitável. E politicamente insuficiente.
Porque o que o PCC e o CV fazem no território brasileiro vai muito além do tráfico de drogas. Eles controlam territórios inteiros, definem regras de convivência para a população local, cobram pedágios e taxas de comerciantes, julgam e executam, recrutam integrantes, doutrinam, financiam campanhas e interferem em eleições. Estabelecem um Estado dentro do Estado, com legislação, arrecadação e poder de vida e morte.
Quando uma organização controla o território, define as leis locais e pune quem as desobedece, a distinção entre “crime organizado” e “poder paralelo com motivação política” começa a se dissolver.
A pergunta que Nayib Bukele fez em 2025 se aplica ao Brasil: “Como é possível que uma organização criminosa consiga se apropriar de um território inteiro e o governo não consiga expulsá-los?”
A resposta dada pelo governo salvadorenho pode ser incômoda: “Porque eles estão dentro do governo.”
O padrão continental
O Brasil não chegou a esse ponto por acaso e não está sozinho nele. O que se observa no continente nos últimos anos é uma sequência de episódios que, vistos em conjunto, formam um retrato perturbador.
Na Venezuela a promiscuidade entre Estado e narcotráfico atingiu o nível mais explícito já documentado na região: militares, agentes de inteligência e funcionários do regime de Maduro operavam diretamente o tráfico de cocaína através do Cartel de los Soles. A classificação americana como organização terrorista, em 2025, criou a base jurídica para a captura de Maduro em operação militar no início de 2026. Ele aguarda julgamento em Nova York.
No México, seis cartéis foram enquadrados como organizações terroristas. A presidente Claudia Sheinbaum adotou postura idêntica à do governo brasileiro: rejeitou a classificação, invocou soberania e propôs barreiras constitucionais contra operações americanas em solo mexicano. A resposta de Trump foi anunciar ataques terrestres contra os cartéis.
Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro enfrenta investigação federal americana. Procuradorias de Brooklyn e Manhattan apuram se representantes de seu governo negociaram com narcotraficantes presos a suspensão de extradições em troca de dinheiro. Seu visto americano foi revogado e sanções foram aplicadas contra ele e membros de sua família.
Em Cuba, a ofensiva americana ganhou contornos históricos. Raúl Castro foi formalmente indiciado nos EUA em maio de 2026, tornando-se o primeiro líder da cúpula cubana a enfrentar acusações americanas em quase sete décadas. Simultaneamente, sanções progressivas foram impostas ao regime de Díaz-Canel, atingindo seu aparato de inteligência. O deslocamento do porta-aviões USS Abraham Lincoln para o Caribe foi um recado claro.
Na Nicarágua, o regime de Ortega recebeu designação oficial de ditadura pelo Departamento de Estado americano, com rodadas de sanções atingindo inclusive filhos do casal e setores econômicos usados para financiar grupos paramilitares.
Fora do eixo das sanções americanas, mas dentro do mesmo mapa de degradação institucional: na Argentina, Cristina Kirchner cumpre prisão domiciliar após condenação por corrupção, com confisco bilionário de bens confirmado pela Justiça. Rafael Correa, do Equador vive exilado na Bélgica desde 2017, condenado por esquema de propinas ligado à Odebrecht, sem possibilidade de retorno. Na Bolívia, Evo Morales é foragido com múltiplos mandados de prisão por acusações que incluem abusos contra menores.
Ao comentar a crise boliviana, o vice-secretário de Estado americano Christopher Landau sintetizou o que enxerga como o problema central do continente: “Existe uma aliança maligna entre política e crime organizado em toda a América Latina.”
O Foro de São Paulo
Criado em 1990 a partir de uma iniciativa conjunta de Fidel Castro e Lula, o Foro de São Paulo nasceu como resposta política ao colapso soviético, uma tentativa de reorganizar a esquerda latino-americana num mundo que havia acabado de perder seu principal referencial ideológico. Três décadas depois, a rede que reúne chavismo, castrismo, sandinismo e seus aliados continua ativa. Mas seu mapa humano, em 2026, conta uma história diferente da fundação: boa parte de seus líderes históricos responde a processos criminais, cumprem penas, vivem no exílio ou operam na clandestinidade.
Isso, por si só, não prova cumplicidade com o crime organizado. Mas cria uma pergunta legítima que uma análise política séria não pode ignorar.
Desde sua origem, o Foro acomodou sob o mesmo teto partidos eleitorais e organizações com histórico de violência armada. As FARC participaram ativamente desde a fundação. O ELN colombiano e o MIR chileno também receberam respaldo político da entidade ao longo dos anos. A fronteira entre luta armada e crime organizado, nesses casos, nunca foi uma linha clara. Foi sempre uma zona cinzenta.
Os governos vinculados ao Foro resistem, de forma consistente e com os mesmos argumentos, a classificações terroristas aplicadas a organizações que operam em seus territórios. Aconteceu com o Hamas, com as FARC, com o Cartel de los Soles venezuelano e acontece agora com PCC e CV. A justificativa muda de país para país, soberania aqui, divergência jurídica ali, resistência ao intervencionismo acolá, mas o resultado é sempre o mesmo: as organizações seguem operando, os territórios seguem perdidos, o dinheiro segue circulando.
Quando um padrão se repete em dez países diferentes, com atores distintos, mas produz o mesmo desfecho, ele deixa de ser coincidência e exige explicação. O Brasil pode ser o próximo capítulo dessa história.
O tabuleiro brasileiro a partir de hoje
A classificação do PCC e do CV pelos EUA coloca o governo Lula numa posição difícil.
Se aceitar a medida americana e cooperar, contradiz meses de resistência pública e gera desgaste junto à sua base. Se resistir e denunciar “intervencionismo”, será lido, sobretudo num ano eleitoral, como defensor das organizações criminosas. Se ficar em silêncio, a narrativa será construída por outros.
Nesse aspecto, Flávio Bolsonaro saiu na frente. E com um argumento politicamente poderoso: participou das reuniões em Washington, defendeu publicamente a classificação das facções e, 48 horas depois, a medida foi anunciada pelo governo americano. Num ano em que a segurança pública é um dos temas centrais do eleitorado brasileiro, isso vale mais do que pesquisa de intenção de voto.
Ele já projeta o próximo passo: se eleito, o Brasil integrará o “Escudo das Américas”, a cúpula criada por Trump em março de 2026 para aproximar a América Latina de Washington e combater a influência da China na região.
O mapa está desenhado. As peças estão se movendo. E o Brasil, que por décadas tratou o crime organizado como problema interno de segurança pública, sem combate efetivo, acorda em um novo cenário em que suas principais facções figuram na mesma lista de organizações que justificaram operações militares em outro país do continente.
A guerra, Lula disse, “é nossa”. Mas parece que agora ela já não é mais tão nossa assim. A guerra agora é geopolítica.

Tay Pellegrini – Mãe, esposa e empresária.
Graduanda em Ciência Política, analista política, comentarista de política e geopolítica e colunista do Relevante News.