Antonio Gramsci ensinava que o poder não se mantém apenas por meio das instituições formais. Ele se consolida quando a cultura absorve uma narrativa como natural. Quando o imaginário coletivo passa a refletir uma visão de mundo específica sem percebê-la como disputa.

É por essa chave que deve ser analisado o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula.

Não foi apenas carnaval. Foi política estética em escala nacional.

A Sapucaí transformou-se em palanque a céu aberto, televisionado, com uma narrativa cuidadosamente construída e a verdade detalhadamente omitida.

O enredo seguiu a fórmula clássica da mitificação: origem humilde, perseguição injusta, retorno redentor. Lula foi apresentado como herói nacional. A história dele foi completamente purificada.

Nenhuma menção aos escândalos que marcaram os governos petistas, às condenações confirmadas em todas as instâncias antes de serem anuladas pelo STF, às investigações que expuseram um dos maiores esquemas de corrupção da história do país.
Nenhuma referência ao Mensalão, ao Petrolão, à Lava-Jato, às alianças com ditaduras, aos casos do triplex e do sítio de Atibaia, ou à política de financiamento internacional do BNDES, que enviou bilhões de reais para obras em outros países.

Transformar Lula em mito exige editar a memória nacional. E foi exatamente isso que se viu na Sapucaí.

Enquanto isso, o antagonismo foi direto. Uma alegoria caricaturando Jair Bolsonaro como palhaço com tornozeleira eletrônica explicitou o adversário político como figura ridicularizada.

Há diferença entre desfile que questiona sistema e desfile que endeusa chefe de Estado presente fisicamente.

Isso é um ponto crucial.

Lula estava lá. Não como personagem histórico distante, mas como líder em exercício sendo celebrado monumentalmente, enquanto o principal adversário era satirizado.

Não se trata de censurar arte. Trata-se de reconhecer a natureza política do ato.

O Tribunal Superior Eleitoral decidiu que impedir o desfile seria censura prévia. O argumento foi que a Justiça não poderia vetar manifestação artística antecipadamente.

Mas em 2022 houve decisões que bloquearam conteúdos sob justificativa de proteger o processo eleitoral. A comparação é inevitável. Se naquele contexto o risco à lisura justificou intervenção preventiva, por que agora o risco simbólico não justificaria ao menos o mesmo rigor?

A alegoria monumental do presidente, a palavra de ordem “sem anistia”, pessoas fazendo o gesto eleitoral, símbolos associados ao partido, transmissão nacional pela TV Globo, tudo isso compôs um cenário de mobilização simbólica.

Chamar isso de “apenas festa” é ingenuidade política.

Mas é impossível ignorar que a monumentalização de líderes vivos é prática recorrente em sistemas onde o chefe de Estado é colocado acima da crítica. A Coreia do Norte é o exemplo extremo desse culto permanente à imagem do governante. E nem precisamos atravessar oceanos: aqui ao lado, Nicolás Maduro também utilizava o aparato estatal para se autopromover e construir sua própria mitologia política. Quando líderes passam a ser celebrados como símbolos épicos em eventos de massa, a fronteira entre homenagem e culto começa a se estreitar.

A esquerda brasileira há alguns anos critica culto à personalidade, desde que a personalidade não seja aquela que ela própria escolheu endeusar. O discurso é de amor, inclusão e diversidade. Mas a diversidade parece ter limites claros quando envolve conservadores ou cristãos. A tolerância desaparece quando a divergência é ideológica.

Se fosse o contrário, Bolsonaro exaltado como herói nacional, Lula representado como caricatura negativa, palavra de ordem eleitoral ecoando sob transmissão nacional, o debate sobre abuso simbólico seria imediato. Ou melhor, o desfile seria previamente vetado sob o argumento de uma “situação excepcionalíssima”, expressão utilizada pela Ministra Cármen Lúcia ao censurar previamente o documentário da Brasil Paralelo em 2022.

A política não se limita a palanques oficiais. Ela acontece na cultura, na música, na imagem, na repetição simbólica.

O desfile não foi ilegal por definição automática. Mas foi político por essência.

Transformar chefe de Estado em alegoria monumental diante de milhões de espectadores em pleno ano eleitoral não é neutro.

O problema não é o samba. É quando o tamborim marca o ritmo de um velho e conhecido projeto de poder.

Tay Pellegrini – Mãe, esposa, empresária. Conservadora, cristã, pró-vida. Liberdade até para quem discorda. Falo de política sem enrolação.

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