Toda grande mobilização popular carrega um ritual previsível: primeiro é ignorada, depois ridicularizada, em seguida demonizada. Só quando produz efeitos reais passa a ser reescrita como “inevitável”.

Da Revolução Francesa às Diretas Já, da marcha do sal de Gandhi às revoluções do Leste Europeu, o padrão se repete. E quem hoje ri de mobilizações políticas costuma ser exatamente quem teme o que elas anunciam. É dentro dessa lógica histórica que se insere a caminhada liderada por Nikolas Ferreira.

A Marcha sobre Versalhes, em 1789, não foi tratada como evento nobre. Mulheres pobres, chamadas de desordeiras, caminharam quilômetros exigindo pão. O resultado: o rei foi obrigado a abandonar o palácio e a monarquia absoluta começou a ruir. Nenhuma revolução começa autorizada. Começa com incômodo.

Gandhi foi tratado como excêntrico ao marchar centenas de quilômetros contra o imposto do sal. A elite britânica achou ridículo. Aquela “caminhada inútil” tornou-se um dos símbolos mais poderosos da independência da Índia. O império riu. Depois perdeu o controle.

No Brasil, as Diretas Já foram vistas por parte da imprensa e da classe política como uma “festa sem efeito prático”. Milhões nas ruas provaram o contrário. Não derrubaram o regime no dia seguinte, mas tornaram sua continuidade politicamente insustentável. A História não se move por decreto. Se move por desgaste.

Mobilização popular não nasce grande, nasce incômoda. Desorganiza narrativas e tira o conforto de quem se acostumou a mandar sem ser questionado.

Há um erro comum, e convenientemente difundido, em medir mobilizações apenas pelo efeito imediato. “Derrubou o governo?” “Mudou a lei no dia seguinte?” Essa régua curta serve apenas para deslegitimar movimentos que ainda estão em processo.

A Primavera Árabe começou com um vendedor ambulante. A Revolução de Veludo começou com estudantes. A queda de Milosevic, na Sérvia, começou com protestos que a mídia chamou de irrelevantes. O poder sempre subestima o que não controla, até ser tarde demais.

Mobilizações bem-sucedidas constroem três coisas antes de qualquer vitória formal: narrativa, identidade coletiva e pressão constante. Quando essas engrenagens giram juntas, o sistema range.

Quando uma mobilização cresce fora do controle institucional, a reação quase automática das elites é o deboche. “Ato vazio”, “show político”, “idolatria”, “falta de pauta”. O repertório é antigo.

Foi feito com Gandhi, com Lech Wałęsa, com os operários do Solidarność, com os estudantes da Revolução de Veludo e com todo movimento que se recusa a nascer domesticado.

Ridicularizar serve para duas coisas: desestimular adesão e ganhar tempo. Tempo para que o sistema tente se rearrumar antes que o povo perceba a força que tem. É uma técnica velha, eficiente e profundamente reveladora de medo.

A caminhada liderada por Nikolas Ferreira não é um ato isolado, mas o sintoma visível de um esgotamento profundo. Milhões de brasileiros não se sentem representados pelas instituições, pela mídia tradicional nem pelo discurso político dominante.

Não se trata de uma pauta única.

Trata-se da sensação de colapso geral.

É a reação de um povo sufocado por impostos abusivos, anestesiado por escândalos diários de corrupção, refém da explosão da violência e da criminalidade e perplexo diante de um Judiciário que prende inocentes e solta criminosos.
O país não vive uma crise passageira. Está em frangalhos.

O objetivo não é “derrubar algo em um dia”, mas provar que o movimento existe, é coeso e está disposto a agir. É chamar o povo de volta às ruas e escancarar o tamanho de uma insatisfação que já transbordou.

Mobilizações são termômetros sociais. Ignorá-las não evita a febre, só adia o colapso.

Rir da caminhada não a enfraquece, apenas confirma que ela tocou onde incomoda ou revela, em muitos casos, a completa desconexão de quem desdenha com a realidade do país.

Mobilizações populares não pedem autorização, não nascem limpas, não seguem roteiro institucional e não se preocupam em parecer simpáticas. Elas surgem quando o povo entende que esperar sentado custa mais caro do que levantar e andar.

O deboche é a primeira arma do incapaz. Ele expõe o desprezo de quem não compreende o que está diante dos próprios olhos ou funciona como mecanismo de defesa para esconder fragilidade, insegurança e impotência. Na tentativa de parecer força, o deboche se revela como fuga.

A história não é escrita por quem ironiza do sofá. Ela é escrita por quem aceita o desgaste de estar na rua. Não registra tweets sarcásticos, editoriais cheios de desprezo ou risadinhas de superioridade moral. Registra deslocamentos. Movimentos. Corpos andando na mesma direção.

Quem hoje diz “não vai dar em nada” não está fazendo análise política.
Está apostando que o povo continue quieto.

E quase sempre, fazendo torcida contra o próprio povo.

No fim, a escolha nunca foi entre caminhar ou não.

Foi entre caminhar agora

ou ser atropelado depois.

Tay Pellegrini – Mãe, esposa, empresária. Conservadora, cristã, pró-vida. Liberdade até para quem discorda. Falo de política sem enrolação.

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