segunda-feira, janeiro 18, 2021
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Nem esquerda, nem direita. É possível?

"Faz sentido dizer que não é nem de esquerda nem de direita? É certo que todo mundo já ouviu isso de alguém em algum momento. Descubra o erro que há em pensar assim", diz Pedro Delfino em novo artigo

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Todos nós já ouvimos pelo menos uma vez na vida alguém dizendo que não se identifica nem com a esquerda e nem com a direita. Normalmente, esse discurso vem de pessoas que não se interessam muito por política (e, portanto, não a entendem direito), fazendo, assim, com que ela fique de fora dessa disputa entre esquerda e direita, vendo os dois lados se digladiarem e tomando asco desse conflito.

Essa reação é natural e nem um pouco incompreensível, uma vez que esse conflito é, realmente, desgastante e, muitas vezes, dá preguiça até aos que gostam de política. Eu, por exemplo, que vivo falando desse assunto por aqui, não poderia encher a minha boca para dizer que GOSTO de política. No entanto, eu e muitos outros aos quais me junto nessa luta temos um senso do que é PRECISO ser feito, que vai muito além do que nós simplesmente GOSTARÍAMOS de fazer.

Chesterton já disse em A Nova Jerusalém: “O verdadeiro soldado luta não porque odeia o que está à sua frente, mas porque ama o que está por trás dele“. Obviamente, ninguém GOSTA da guerra, mas às vezes ela é necessária. E não entender isso pode colocar muito do que a gente ama em risco, inclusive nossa família, nossa religião, nossa liberdade, nossa qualidade de vida, etc.

“Mas por que eu preciso ser de esquerda ou de direita para isso? Eu não quero ser nenhum dos dois.” – insistem eles.

Gravem isso que eu vou dizer: POLÍTICA É UM JOGO DE INTERESSES. Ela se define pela capacidade que as pessoas têm de se organizarem em torno de certos interesses em comum e conseguir influenciar a tomada de decisões, “vencendo” assim os que possuem interesses contrários. Numa democracia, onde as pessoas são livres para pensar o que quiserem – inclusive para não pensar – jamais haverá unanimidade em torno de causa alguma, portanto, o objetivo é sempre formar MAIORIA e garantir que o SEU projeto para o país seja colocado em prática –e não o do outro.

Dito isso, vejamos os motivos pelos quais não faz sentido algum bater no peito para dizer que não é de direita nem de esquerda. Primeiro motivo: só existem essas duas opções. De vez em quando aparecem uns “intelectuais” por aí pregando a ideia de que essa divisão está ultrapassada e é coisa superada de outros tempos. Mas não se deixem enganar por quem quer apenas embaralhar os conceitos para impedi-los de verem as coisas com clareza. Independentemente das subdivisões, todas as linhas de pensamento político se encaixam nesses dois grande grupos: esquerda e direita. E, na política, nós nos deparamos constantemente com questões práticas onde precisamos objetivamente escolher um lado.

Exemplo: Você é contra ou a favor do aumento de impostos? Você é contra ou a favor da liberação das armas? Você é contra ou a favor da legalização das drogas? Você é contra ou a favor da reforma da previdência?

Diante dessas questões, você exerce a sua cidadania refletindo sobre o problema e chegando à conclusão de que é “contra” ou “a favor” de uma determinada proposição – a não ser que você não queira exercer o seu papel de cidadão e se recuse a pensar sobre isso, deixando assim a questão em aberto. Platão dizia que “não há nada de errado em não gostar de política, a não ser o fato de que essas pessoas serão governadas por aqueles que gostam”. Ou seja, se você prefere se manter alienado, é o seu direito, mas lembre-se que independentemente de você gostar ou não, as decisões continuarão sendo tomadas; você só não estará participando do processo e, logicamente, não poderá reclamar depois.

Então, se só existem dois lados, cada vez que você toma uma decisão na política você está obrigatoriamente se juntando a um lado ou ao outro e, no panorama geral, você pode se identificar com eles numa proporção 100/0, 90/10, 80/20, 70/30 etc. Cabe a você estudar as raízes e fundamentos de cada um desses posicionamentos para descobrir com qual deles você se identifica mais.

Segundo motivo: a escolha concreta possível é melhor do que a escolha ideal impossível.

Tudo bem, digamos que você olhe para a direita e não goste muito do que vê, mas que você olhe para a esquerda e também não sinta vontade alguma de se associar àquilo. Esse dilema é o caso de muitos. Porém, como foi dito antes: política é um jogo de interesses. Em um cenário totalmente diferente você poderia ter dois grupos concorrentes que representassem coisas muito melhores, talvez com os nomes de “cima” e “baixo” no lugar de esquerda e direita. Mas, o grande problema com esse cenário é que ele NÃO EXISTE. Não existem os partidos de cima, nem os partidos de baixo. Mas existem os de esquerda e os de direita.

Logo, numa situação de dualidade política, abster-se de apoiar um significa automaticamente uma contribuição ao outro que enfrentará um adversário menos forte do que ele poderia ser. No fundo, todos nós temos as nossas preferências e, se não as temos formadas, é exclusivamente porque fomos negligentes a ponto de ainda não termos parado para pensar direito sobre aquilo até hoje.

Dependendo das conclusões a que chegamos, após estudar e refletir sobre cada uma das principais questões políticas dos nossos tempos, naturalmente sentiremos mais afinidade pelas ideias de um lado ou de outro. A relutância em tomar um lado, então, significa dizer que estamos (sem querer) ajudando a causa que é contrária aos interesses que existem dentro de nós. E isso deveria ser algo que preocupa a todos.

Imagine uma situação em que existem dois candidatos a síndico no prédio onde você mora: um deles é um sujeito meio antipático, você não vai muito com a cara dele, mas de resto é uma pessoa normal; já o outro está querendo se tornar síndico para usar o dinheiro do condomínio a fim de reformar o apartamento dele e promover várias mudanças que beneficiariam apenas a ele. O fato de você não se identificar com o primeiro te impediria de apoiá-lo diante de um concorrente como esse? Lembre-se: política é jogo de interesses, então se você não defender o seu interesse o interesse do outro irá se impor em detrimento do seu!

Manter-se isento é o mesmo que lavar as mãos frente aos problemas e, caso a pior hipótese se concretize, tornar-se cúmplice dela por omissão.

Como se não bastassem os equívocos descritos até aqui, muitos, ainda, por causa de suas personalidades fracas, têm verdadeiro pânico de rótulos e por isso não se deixam rotular por temor da repercussão. Como se o ato de definir-se como de esquerda ou de direita puxasse para si tudo o que há de ruim de um lado ou de outro e te colocasse dentro de uma caixinha que facilitasse o julgamento alheio. Mas só se incomoda com isso quem está tão preocupado em perder a aceitação do grupo que não se permite sequer o direito legítimo de ter ideias, apoiar o que acredita e defender uma causa; por isso, preferem passar a vida em cima do muro olhando para os que estão lá embaixo, de fato lutando por algum ideal maior. No final das contas, aquele que não toma um lado só pode ser duas coisas: preguiçoso, porque não se interessa em investigar suas próprias crenças e por isso nem sabe como se situar no espectro político; ou covarde, por saber perfeitamente como se situar mas não ter coragem de assumir.

Pedro Delfino é especialista em História da Civilização Ocidental e História da Igreja Católica; autor do livro Mentalidade Atrasada, Nação Fracassada (que aborda temas como História, Filosofia e Política); do Curso de História Geral da Civilização Ocidental, do Curso de Excelência Catholica, do livro Via Sancta e é co-Fundador do Movimento Brasil Conservador.
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