Voltando aos novos negócios criados em rede. Já ouviu falar da Etsy?

A empresa uniu artesãos de todos os tipos, do mundo todo, a potenciais compradores e se tornou uma grande vitrine virtual global

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Reprodução/Etsy

Já falamos aqui de inúmeros novos tipos de negócios possibilitados pela criação da “Larga Rede Global” (esquisito, né? Mas é a tradução literal de www). Essa grande rede que mudou nossa sociedade, a forma de interação das pessoas com as pessoas; e inclusive das pessoas com as “coisas” e os serviços. E isso não para por aí. Ainda falaremos mais a frente sobre a famosa IOT (Internet das Coisas). Mas, por ora, voltaremos aos impactos da Internet na criação de toda uma nova plataforma econômica que vem ganhando cada dia mais espaço no mundo.

Em 2005, Rob Kalin, um jovem formado na Universidade de Nova York, resolveu abrir uma empresa com alguns amigos. A ideia surgiu da “dor” de Rob em não conseguir se conectar aos possíveis compradores de seus móveis que eram fabricados à mão, ou seja, de forma totalmente artesanal. Ele e seus amigos se juntaram e montaram um site chamado Etsy.  A ideia inicial era unir artesãos de todos os tipos, do mundo todo, a potenciais compradores. A empresa decolou em 4 anos, e o site se tornou uma grande vitrine virtual global, onde milhões de compradores e vendedores de mais de 60 países estão se conectando. Isso simplesmente deu uma nova vida à produção artesanal global, uma arte que praticamente desapareceu com o advento do capitalismo industrial moderno.

Indústrias domésticas locais não poderiam competir com a produção centralizada em fábricas. Esse modelo tornava os produtos muito mais baratos. Um modelo que forçou a produção artesanal à quase extinção. Pois a Internet está mudando o jogo ao conectar milhões de compradores e vendedores num espaço virtual praticamente gratuito, quase sem intermediários e que elimina vários custos de transação que são agregados a cada etapa da cadeia de suprimento, produção industrial de larga escala e logística de distribuição. Dá pra entender o tamanho dessa revolução? Se não entendeu ainda, faça uma forcinha para voltar até 1999 e lembrar do que o Napster iniciou com a revolução do compartilhamento de músicas através dos arquivos em Mp3. Alguém se lembra do poder da indústria fonográfica? Qual o tamanho dela hoje?

Bom, a Etsy vai muito bem. Teve faturamento de R$604 milhões de dólares no ano de 2018. Hoje, além de um site de venda de produtos artesanais, a plataforma agregou produtos “vintage” (deve-se comprovar no mínimo 20 anos de idade do produto para entrar nessa categoria). Como ela lucra? Cada produto vendido deixa um valor como comissão da venda. A última informação por meio de pesquisas foi de algo em torno de 0,20 centavos de dólar por produto vendido. Fiquei impressionado por achar muito baixo. Buscarei mais informações sobre isso.

Para além de todas essas transformações que esse novo tipo de negócio provoca, ainda há outra: a personalização entre vendedor e comprador. Ou seja, a customização entra no cenário como grande protagonista. O site possui salas de chat que permitem vendedores e compradores interagirem, trocarem ideias e até criarem vínculos sociais que podem extrapolar a transação comercial.

Empresas globais gigantescas que fabricam produtos padronizados em massa, em linhas de montagem operadas por forças de trabalho anônimas, não podem competir com o tipo de relação íntima e direta entre artesão e cliente. Rob Kalin diz que “esta relação entre pessoas, de quem faz com quem compra, é o cerne da Etsy”.

Dá pra notar alguma diferença entre esse tipo de negócio e os que se estabeleceram nos últimos dois séculos e perduraram por um bom tempo achando que não seriam ameaçados? Vou te dar uma dica de uma empresa que pensou assim. Ela nasceu em 1880. Foi revolucionária na indústria do cinema e por décadas mandou no mercado fotográfico. Inventou a câmera digital e não apostou no produto à época. Figurou entre as 10 marcas mais valiosas do mundo nos anos 1990 e chegou a ter mais de 100 mil colaboradores no planeta. Entrou com pedido de falência em 2012 e desde então tenta se recuperar sem êxito. Alguém adivinha que empresa foi essa? É o “case” mais citado de quem não entendeu que as coisas mudaram rapidamente na transição de século. Alguns já estão cansados de ouvir sobre isso, mas para os que não sabem dos detalhes eu conto na próxima edição.

Bem-vindos a uma nova realidade que Alvin Toffler resumiu perfeitamente: “Os analfabetos do século 21 não serão aqueles que não sabem ler e escrever. Mas sim aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender”.

Esse, sim, era um gênio com visão à frente do seu tempo! Minha homenagem a esse eterno mestre futurista com quem muito aprendi e nos deixou em 2016. Obrigado por toda contribuição para a humanidade, Alvin Toffler.

Até a próxima, pessoal.

Thiago Jarjour (Colunista) Vice-presidente da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas e Embaixador da Campus Party. Ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Distrito Federal