Início Colunistas Perseguição ao Cristianismo na África

Perseguição ao Cristianismo na África

O que está ocorrendo em São Tomé e Príncipe e em Angola que deveria nos preocupar?

-

No último artigo, vimos como qualquer notícia que mencione a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) não pode ser corretamente entendida sem alguns esclarecimentos anteriores. Apresentei alguns argumentos para ajudar na melhor compreensão dos fatos que dizem respeito àquela igreja, pelo menos para evitar a sua condenação antecipada. O link para o artigo está aqui e recomendo sua leitura antes de continuar com as informações a seguir.

Dito isso, pode-se dizer que o ano de 2019 foi particularmente difícil para a Igreja Universal na África. No final daquele ano, um grupo de ex-pastores se uniu para assinar um “manifesto” esdrúxulo divulgado na mídia local. Não se sabe se 330 angolanos (que apesar de terem sido expulsos da igreja ainda se intitulam pastores) realmente assinaram o mencionado manifesto, mas o movimento parece estar espalhado por várias províncias do país. O conteúdo do manifesto está transcrito a seguir:

O corpo de Bispos e Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola vem por este meio comunicar a todos os seus membros e a toda sociedade angolana o seguinte:

1. A Igreja Universal do Reino de Deus é uma instituição religiosa de direito Angolano registada no Ministério da Justiça sob o número 26, reconhecida pelo Decreto Executivo N° 31 B/92 de 17 de julho, I Série n° 28 do Diário da República. Portanto, regida por estatutos próprios, pelas leis e pela Constituição da República de Angola.

2. A sua missão, conforme os estatutos, é a pregação do evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo, prestar assistência espiritual e social à todas as famílias angolanas e não só.

3. Para cumprir o referido objectivo tem, ao longo de 27 anos, recorrido a IURD – Brasil para o envio de missionários brasileiros, o que criou um vínculo espiritual com a IURD – Brasil e esta tem exercido a liderança e domínio absoluto da IURD – Angola.

4. Tal domínio, referido no ponto anterior, é visível em todos os quadrantes da Igreja, desde os púlpitos à área administrativa, que tem se traduzido em actos discriminatórios, onde na maior parte das vezes o principal critério para se atribuir certas responsabilidades eclesiásticas e/ou administrativas é a nacionalidade brasileira.

5. Já há alguns anos, a liderança brasileira tem manifestado atitudes, comportamentos e práticas que os Bispos, Pastores, Obreiros e membros angolanos não se reveem e nem concordam, tais como, a evasão de divisas para exterior.

6. Nos últimos doze meses, a anterior e actual liderança brasileira por orientação do Bispo Edir Macedo tem forçado os Pastores solteiros e casados a submeterem-se a um procedimento cirúrgico de “esterilização”, tecnicamente conhecido como vasectomia que, são claras violações graves dos direitos humanos, da lei e da Constituição da República de Angola, práticas estas que são estranhas aos costumes da nossa realidade africana e angolana.

7. A mesma liderança brasileira, sob orientação do Bispo Macedo, decidiu vender mais da metade do património da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola, sem prévia consulta aos Bispos, Pastores, Obreiros e membros angolanos.

8. O referido património inclui residências e, terrenos que foram adquiridos e/ou construídos com os dízimos, ofertas e doações dos Bispos, Pastores, Obreiros e membros de Angola.

9. Tal decisão do Bispo Macedo, em vender o património acima referido, foi transmitida em reunião secreta em Luanda, presidida pelo Bispo Honorilton Gonçalves, onde apenas alguns poucos pastores e bispos brasileiros participaram e nenhum Bispo/Pastor angolano teve acesso a tal reunião, nem sequer o representante legal da Igreja.

10. Tal atitude da liderança brasileira é uma clara demonstração de:

a) Que os objectivos deixaram de ser aqueles pelos quais a IURD – Angola os convidou, ou seja, a pregação do evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo;

b) Traição à confiança que os membros, Obreiros, Pastores e Pispos angolanos depositaram a referida liderança.

11. Diante de tais actos e pela gravidade dos mesmos, em respeito aos principios da fé cristã, o corpo de Bispos e Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola decidiu, em fórum próprio, pôr fim a qualquer vínculo com a liderança brasileira e com a IURD – Brasil, pelo que, a mesma liderança deverá deixar o território nacional dentro dos prazos estabelecidos pelas autoridades migratórias.

12. Em salvaguarda aos mais nobres ideais da nação, a partir desta data a Igreja Universal do Reino de Deus em Angola passa a ser liderada exclusivamente por Angolanos.

13. Finalmente, pede calma aos Obreiros e membros da IURD – Angola.

Deus abençoe a todos, Deus abençoe Angola.

Luanda, 28 de Novembro de 2019.

Subscrevem 330 (trezentos e trinta) Bispos e Pastores angolanos”.

Tudo indica que a situação em Angola foi alimentada por algo que ocorreu no mesmo ano, no mesmo continente. Basicamente, Ludumilo da Costa Veloso, então pastor da IURD em São Tomé e Príncipe, foi convidado pela sua igreja para pregar na Costa do Marfim. Aparentemente, Ludumilo aceitou a viagem para não perder as regalias que tinha como pastor (habitação e transporte), mas não gostou da ideia de ter sido movimentado. Então ele fez o que todo cidadão adulto e responsável faria: criou um perfil falso nas redes sociais para criticar e difamar a igreja que ele deveria servir. As críticas tinham o mesmo tom revolucionário que os dissidentes angolanos adotam em seus discursos, com trechos como: “Éramos muito pacientes, humildes demais, educados demais. Agora é hora de agir sem piedade”.

Mas Ludumilo não era a pessoa mais esperta do mundo e depois de poucos meses foi denunciado à polícia local. Pego, ele confessou o crime e ficou detido na Costa do Marfim. Assim terminou o seu vínculo com a Igreja Universal, tendo ele que desocupar a residência que a igreja empresta aos seus pastores. Sua esposa, Ana Paula Veloso, retornou à sua terra natal reclamando da pouca disposição da igreja para defender o seu marido. Contudo, São Tomé e Príncipe tem uma área pouco maior que a cidade de São Paulo (cerca de 1.001 km2) e apenas 211 mil habitantes (pouco menos que a cidade de Teresina).

Assim, as dores do casal Veloso foram rapidamente compradas por populares em São Tomé e Príncipe, que passaram a acusar a Universal de ter largado Ludumilo em outro país. Essa acusação se juntou àqueles setores da sociedade que estão acostumados a se posicionar contra qualquer coisa relacionada ao cristianismo, de modo que em poucos dias os civilizados cidadãos são-tomenses se lançaram a atacar e vandalizar os templos da igreja no país. O clima de perseguição permissiva em São Tomé e Príncipe encorajou os pastores expulsos da igreja em Angola a se unirem e divulgarem o manifesto já mencionado, buscando criar uma narrativa para justificar um golpe contra a liderança da igreja. E desde então, a situação só tem piorado.

Particularmente, acho que a acusação mais controversa seja a de obrigar os pastores a fazer vasectomia. De fato, tal acusação já foi feita algumas vezes aqui no Brasil, apesar de haver pelo menos 13 decisões em primeira e segunda instâncias dando razão à Igreja Universal. Claro, se a acusação fosse de que a IURD está amarrando os pastores à força e realizando cirurgias sem o consentimento deles, a situação seria outra. Entretanto, em fevereiro de 2020 o líder dos dissidentes, o ex-bispo Valente Luís, disse em entrevista ao jornal angolano O País que ninguém era forçado a nada. Na entrevista, ele explicou que o procedimento era uma orientação da liderança, e não algo imposto de forma agressiva.

Claro, se qualquer organização que eu fizesse parte me dissesse para realizar um procedimento para limitar o número de filhos que eu posso ter, eu não hesitaria em dizer não e seguir o meu próprio caminho. Isso é o que se espera de um homem adulto responsável por seus atos e em plena condição mental. Contudo, o que está acontecendo é que os mesmos sujeitos que se submeteram voluntariamente ao procedimento para não perder benefícios que a Universal dava querem liderar um movimento revolucionário envolvendo a expulsão de brasileiros e a captura de todos os templos construído pela igreja no país. Será que eles pensaram que ninguém perceberia a inconsistência?

A imaturidade desses rebeldes também está registrada no item 11 do manifesto de novembro, onde dizem que os pastores brasileiros deverão “deixar o território nacional dentro dos prazos estabelecidos pelas autoridades migratórias”. E eu nem sabia que eu podia expulsar os outros do meu país porque discordo deles! Agora quando nós discordarmos de alguma organização estrangeira, vamos simplesmente tomar o que é dela e expulsar seus membros do país! Se eu não conhecesse a triste história de Angola e a doutrinação socialista pela qual seu povo passou, eu estaria me questionando de onde veio essa mentalidade.

Enfim, o grande problema é que essa tentativa de golpe contra a IURD ainda está em curso, alimentada por ex-pastores, setores da mídia e influenciadores digitais, que misturam à perseguição um tom nacionalista e xenofóbico contra os brasileiros. De fato, alguns templos permanecem ocupados e brasileiros já foram tirados de suas casas por quem diz querer o melhor para a igreja, sempre com a apoio daquela parte da população que falei em meu primeiro artigo.

O que nos resta além de orar é pressionar as autoridades brasileiras a convencer o governo de Angola a proteger não só os nossos cidadãos, mas a liberdade religiosa daqueles angolanos que estão sendo vítimas desses dissidentes. Não tem cabimento que um bando que não soube nem tomar conta da própria vida se apodere dos templos de uma denominação cristã e promova a perseguição de brasileiros como estão fazendo os homens de Valente Luís. É necessário dar um basta nesse movimento antes que ele contamine outros países que estão esperando só o melhor momento e a narrativa mais convincente para fechar igrejas e perseguir cristãos.

Henrique Guilherme (Colunista) É escritor e apresenta o programa O Patriota: A Voz da Resistência. Ele é economista, mestre em Administração Pública e hipnoterapeuta. Também é pós-graduado em Administração de Empresas, Biotecnologia, Matemática e História Militar. Guilherme é geek, patriota, de direita e, principalmente, cristão. Ele dedica sua vida a derrotar as forças do mal e criou a série de livros Guia do Patriota para ajudar todos aqueles que buscam fazer o mesmo.

E-mail: henrique.guilherme@relevante.news



Henrique Guilherme
É escritor e apresenta o programa O Patriota: A Voz da Resistência. Ele é economista, mestre em Administração Pública e hipnoterapeuta. Também é pós-graduado em Administração de Empresas, Biotecnologia, Matemática e História Militar. Guilherme é geek, patriota, de direita e, principalmente, cristão. Ele dedica sua vida a derrotar as forças do mal e criou a série de livros Guia do Patriota para ajudar todos aqueles que buscam fazer o mesmo.
WhatsApp Receba as notícias do Relevante