O que fazer para ajudar pessoas em relacionamentos abusivos?

"Pense agora em um trapezista. Somos assim como ele: só largamos um trapézio quando avistamos outro para nos apoiar', ressalta Otávio Guimarães, em sua nova coluna

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Reprodução/Mne

Certa ocasião, uma mulher – vou chamar de Cíntia, nome fictício – preocupada com a sua amiga – Marcela, nome fictício – veio conversar comigo. Cíntia estava querendo saber o que poderia fazer para ajudar Marcela – essa última estava envolvida em um relacionamento abusivo, no qual sofria agressões verbais e físicas, mas não terminava o relacionamento com o namorado. Via a amiga nesse sofrimento, e perguntou-me: “por que será que ela não termina esse namoro? O que posso fazer para ajudá-la?”.

Como eu não conhecia a Marcela, tudo o que eu podia fazer naquele momento eram suposições. No entanto, acredito que o que eu falei para Cíntia pode ajudar outras pessoas que estão vendo seus amigos, colegas e entes queridos passando por uma situação semelhante.

A primeira coisa que disse a Cíntia foi: não a julgue. Ela não precisa de mais alguém dizendo que seu namorado não presta; que ela precisa se valorizar mais; que ele a faz sofrer; etc. Ela já sabe disso tudo, não é verdade? O que ela necessita nesse momento é de alguém que a ouça sem julgar, sem dizer que ela é “fraca da cabeça”, “que vai sofrer as consequências dessa relação”. Nesse momento é muito mais importante ouvir do que falar.

E consequentemente, esteja aberta a ouvi-la. Esteja disposta a segurar a mão dela, a sentir a dor dela. Isso não quer dizer que você está concordando com a postura dela, mas que está presente, disponível, que se importa. Em momentos de grande dificuldade, o que mais precisamos é de alguém que esteja disposto a nos ouvir em nossa dor.

Se as pessoas não tiveram um sistema de apoio para se sustentarem, não conseguirão sofrer por um mau relacionamento do qual precisam desistir. Faça um esforço para se colocar no lugar dela. Deve existir algum motivo forte para que ela continue nessa relação. A pergunta principal é: qual necessidade dela ele está suprindo? Financeira, carência emocional, atenção, carinho?

Conheci alguém que dizia: “às vezes ele me bate, mas também me dá carinho. É a única pessoa que conheci na vida que me deu carinho de verdade. É muito difícil deixá-lo”. Ao contrário do que alguns afirmam, ninguém gosta de ficar sofrendo por sofrer. Pense nas razões pelas quais ela ainda continua na relação.

Você não poderá fazê-la desistir desse relacionamento apenas falando o quanto esse namorado a faz mal.

Indique uma ajuda profissional. Provavelmente essa pessoa necessita de um suporte especializado. O profissional auxiliará a organizar seus pensamentos, crenças e sentimentos, proporcionando clareza para tomar as decisões, e conforto para lidar com o sofrimento.

Pense agora em um trapezista. Somos assim como ele: só largamos um trapézio quando avistamos outro para nos apoiar. Precisamos que os outros nos sustentem enquanto passamos pelo processo de perda.

Otávio Guimarães (Colunista) É psicólogo e psicoterapeuta. Ajuda pessoas a se encontrarem na vida e obterem dela mais satisfação.
Instagram: @psiotavioguimaraes