“Eu acredito que a maioria dos casamentos podem ser salvos”

O filme "A história de um casamento" está concorrendo a seis globos de ouro. O psicoterapeuta Otávio Guimarães fez uma análise e traz dicas e soluções para tornar a vida a dois mais leve e gratificante

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Se você não assistiu esse filme preciso te avisar que aqui tem spoilers! A história de um casamento está concorrendo a seis globos de ouro, então acredito muito que valha a pena vê-lo. Considero a história muito triste e acredito que representa bem os dramas e conflitos de um casal no processo de divórcio.

Como psicoterapeuta percebo que os casais passam por muitas situações semelhantes. As histórias se repetem. Meu desejo é que essa coluna te ajude no seu casamento, tornando-o mais leve e gratificante. Eu acredito que a maioria dos casamentos podem ser salvos.

Não fique guardando insatisfações; mas procure momentos oportunos para expressá-las

Já ouvi de várias pessoas casadas – principalmente maridos – que não expressam suas queixas por não querer gerar conflitos. Eles vão guardando, guardando e guardando… até que chega o momento em que não amam mais suas esposas; até o momento em que não têm mais prazer em chegar em casa; até o momento em que decidem pela infidelidade.

Mais perto do final do filme há uma cena em que os dois estão no recém alugado apartamento de Charlie, e tentam conversar sobre o processo conturbado que estão enfrentando na justiça. Que cena! Eles “vomitam” todas as insatisfações que tiveram ao longo do casamento e a discussão termina com Charlie dizendo que desejava que Nicole morresse. Olha só a que ponto chegou! Não precisava ser assim!

Mesmo que seu cônjuge não vá gostar do que você tenha a dizer, é muito importante que saiba. Enfatizo que é importante procurar um momento propício para conversar a respeito, mas que não demore muito. Quanto antes a insatisfação for conhecida mais oportunidades há para lidar com ela.

Cuidado com o que você fala/faz, mas principalmente pense no que você tem deixado de falar/fazer

O pior tipo de arrependimento não é fazer ou falar algo que não deveríamos. Embora haja uma tendência a nos ressentirmos imediatamente de uma coisa que fizemos, essa sensação penosa de arrependimento desaparece mais rapidamente; no entanto, o peso do arrependimento sobre as coisas que deixamos de fazer/falar, mas que deveríamos ter feito/falado, não vai embora rápido, e pode até piorar ao longo do tempo.

Tem uma cena no filme que é muito forte: quando Charlie lê a carta que Nicole se recusou a ler naquele encontro com um conselheiro. Ele se surpreende bastante com o que ela escreveu e chora copiosamente. E se Nicole não tivesse saído da sala e tivesse lido o que tinha escrito? Qual o impacto que isso teria na relação? Será que teriam atravessado todo aquele processo árduo de separação?

Um dos maiores erros que os casais cometem é deixar passar as centenas de oportunidades em que poderiam reconhecer características e comportamentos positivos do outro. Somos muito rápidos em apontar os erros e falhas do outro, mas lentos e míopes para as virtudes.

Sempre leve em consideração os sonhos e desejos do seu cônjuge

Ninguém quer ser considerado um coadjuvante no relacionamento. Nicole ressentiu-se com Charlie por ele levar em consideração apenas as suas aspirações profissionais, apenas a sua vontade de permanecer morando em Nova Iorque. Ele investiu praticamente todo o dinheiro que ganharam na própria companhia – pareceu não haver para ele espaço para nenhum outro investimento.

Nicole tinha o desejo de passar um tempo em Los Angeles, mas isso é adiado indefinidamente por Charlie. Realmente parece que o que ela deseja não foi tão importante para ele. O interessante é que, no final do filme, Charlie permaneceu durante um tempo em Los Angeles, justamente por conta de um trabalho. Será que ele não poderia ter antes pensado e concentrado seus esforços em realizar um trabalho em Los Angeles, justamente para satisfazer um desejo de sua esposa?

Geralmente colocamos uma série de empecilhos para adiarmos ou não satisfazermos os anseios do nosso cônjuge. Na maioria das vezes isso é uma desculpa para não sairmos de nossa acomodação.

Não permita que uma ferida te torne cruel

Por toda a gama de emoções negativas presentes no divórcio, o casal que antes tinha a intenção de uma separação amigável acaba utilizando meios ardis para levar vantagem sobre o outro. Eles trazem à tona informações íntimas na disputa litigiosa que travam. É como se eles utilizassem os segredos e pontos fracos do outro para justamente levar vantagem na disputa de guarda e na possível compensação financeira.

Nenhum relacionamento é neutro, isto é, exerce influência sobre nós, seja positiva ou negativa. No entanto, fique atento para não se tornar uma pessoa vingativa, desconfiada e fechada.

Um dos aspectos que mais gostei do filme é que ele não tenta incriminar uma ou outra parte; ele mostra que ambos cometeram erros durante os anos. Geralmente, procuramos culpar o outro pelo fracasso na relação, mas raramente é assim.

Espero que essa reflexão possa te ajudar a melhorar seu casamento. Até a próxima!


Otávio Guimarães (Colunista) É psicólogo e psicoterapeuta. Ajuda pessoas a se encontrarem na vida e obterem dela mais satisfação.
Instagram: @psiotavioguimaraes