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Em que Bolsonaro estava pensando ao escolher Kassio Nunes?

"Por que a escolha de Bolsonaro para o STF não tem nenhum sentido?", questiona Henrique Guilherme em novo artigo

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É muito fácil demonstrar que Bolsonaro fez uma péssima escolha ao indicar Kassio Marques Nunes como substituto de Celso de Mello no STF. Apesar de ter um histórico obscuro e pouco conhecido, o pouco que se sabe sobre Kassio já basta para descartá-lo. De fato, abundam argumentos para considerar a indicação confirmada hoje pela manhã uma das piores escolhas realizadas pelo presidente ao longo do seu mandato.

Kassio é desembargador do Tribunal Regional Federal da 1º Região, aqui no Distrito Federal. Suas decisões indicam que ele faz o jogo político do STF e é simpático à ideologia que permeia as decisões de canalhas como Gilmar Mendes e Dias Toffoli (que eles chamam de “garantismo”, mas eu chamo de bandidofilia, mesmo). Além disso, foi ele quem liberou a licitação para a compra de lagosta e vinhos caros pelo STF em 2019.

Para piorar, em 2015, quando um juiz decidiu deportar para a França o terrorista italiano Cesare Battisti, Kassio Nunes estava lá para impedi-lo e garantir que o assassino curtisse sua liberdade aqui no Brasil. O gosto pela bandidagem parece ter agradado Mendes, Toffoli, Maia e Alcolumbre, que já sinalizaram simpatia pela indicação. O próprio presidente do Senado chegou a indicar que Nunes tem seu apoio, o que para qualquer cidadão de bem seria entendido como um mau sinal.

O que se pode afirmar é que Kassio Nunes é apenas mais do mesmo. O desembargador não pode ser, de forma alguma, confundido com alguém minimamente próximo da direita ou alinhado às ideias daqueles que colocaram Bolsonaro no poder. A indicação do presidente mais parece uma concessão para agradar alguns congressistas do dito Centrão do que uma decisão pautada nos valores do povo que o elegeu.

A vergonha é maior quando se sabe que o desembargador é simpático à prisão depois da segunda instância e subiu na carreira graças a uma indicação de Dilma Rousseff, a petista do cachorro atrás. Portanto, não tem qualquer cabimento a um presidente que deveria representar os conservadores indicar um sujeito como Kassio Nunes para um cargo estratégico, importante e quase vitalício. Mas por que Bolsonaro daria esse tiro no próprio pé?

Na sua live dessa quinta-feira, dia 1º de outubro, o presidente tentou embasar sua escolha, mas acabou fracassando fragorosamente. Bolsonaro apresentou alguns argumentos na tentativa de acalmar os ânimos da sua base, mas acabou apenas atiçando mais aqueles que esperavam mais do presidente. Particularmente, me senti realmente enganado ao ouvir alguns argumentos, que vou listar aqui.

1) Ele começa fazendo alusão à promessa de indicar alguém “terrivelmente evangélico” ao STF, dizendo que pretende cumprir a promessa posteriormente, já que poderá indicar outro ministro até o final do seu mandato. Mas convenhamos, se ele acha que não tem força para indicar um ministro ao gosto do seu eleitorado agora, o que o leva a crer que terá força depois? Se agora ele pensa que a indicação de alguém verdadeiramente cristão não terá aprovação dos senadores, por que acha que será mais fácil depois?

Por outro lado, me parece que ele cometeu um grave erro ao escolher a quem honrar primeiro. Sabemos que Bolsonaro têm feito muitas concessões a congressistas malfalados na tentativa de escapar de um impeachment fraudulento e criar uma base para tornar o Brasil mais fácil de governar. Ele tem sido constantemente colocado no dilema de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Me parece que ele preferiu honrar o mundo primeiro para, se der, honrar o apoio cristão depois.

2) Ao falar sobre a decisão de Nunes de liberar a licitação de lagosta e vinhos caros ao STF, em pleno cenário de restrição fiscal, Bolsonaro se limitou a dizer que ele mesmo não come lagosta, mas não tem nada contra quem come. Realmente, seria melhor se ele nem tivesse tocado no assunto. Basicamente, o argumento do presidente é que só se incomoda com a decisão do seu indicado quem tem algo contra quem come lagosta. Isso não apenas ofende a inteligência dos seus eleitores, mas mostra a teimosia do presidente em reconhecer que tomou uma péssima decisão.

Bolsonaro foi eleito por pessoas que estão de saco cheio com o desperdício do dinheiro público. Gente que é presa e perseguida pelos mesmos canalhas que comem lagosta e bebem vinho de luxo com o dinheiro dos impostos que paga. Ninguém tem nada contra quem come lagosta, mas o mínimo que se espera de alguém alinhado ao povo que o elegeu é saber identificar e cortar os excessos dos perdulários quando pode. E Nunes certamente não passou nesse teste.

3) Bolsonaro comparou a escolha de Nunes com a do evangélico André Mendonça, citando o caso em que o agora ministro da justiça parece ter advogado a favor da ideologia de gênero. Eu não vou nem entrar nos detalhes desse caso porque o que importa aqui é chamar a atenção para a noção que ele tem de ter feito uma ótima escolha com Mendonça. Ele não fez! André Mendonça é morno! O eleitorado conservador nunca se dá bem com o morno, senhor presidente. O senhor realmente quer me convencer que fez um ótimo negócio ao indicar Mendonça só para me vender o Nunes também? Não! Isso é absurdo!

Mendonça vem de uma comunidade que se declara mais progressista, qualidade abominada pela maioria dos eleitores de Bolsonaro, e até 2018 flertava mais com a vermelha Marina Silva do que com qualquer coisa próxima do conservadorismo que esperamos.

4) Quando falou sobre o voto de Nunes para manter o terrorista Cesare Battisti no Brasil, o presidente tentou tirar a responsabilidade do seu indicado dizendo apenas que “Quem decidiu foi o STF”. Sério, presidente? É esse seu argumento? Então se o STF decidiu um absurdo, um desembargador que vota no mesmo sentido está justificado da sua decisão? Então sempre que o STF decidir algo absurdo, o voto de outra pessoa no mesmo sentido torna tal decisão menos absurda?

E vejam, nem a decisão esdrúxula no STF foi unânime: foram 6 votos a 3. O processo que envolveu Nunes estava dentro do escopo de decisão dele e, se ele tivesse a mesma coragem do juiz que decidiu pela extradição do terrorista, poderia ser contrariado pela instância superior, mas teria feito a coisa certa. O que Bolsonaro sinaliza é que Kassio Nunes nem tem culpa nem pela sua covardia, nem pela sua decisão no caso do terrorista.

5) Em determinado momento, Bolsonaro disse que quem indica é o Senado, e não ele. Então me explica, senhor presidente: se é o Senado que indica, como o senhor pode dizer que vai colocar alguém “terrivelmente evangélico” lá? Ou mesmo, como o senhor espera que acreditemos que vai colocar algum cristão lá, de qualquer denominação? O mínimo que esperamos é que Bolsonaro tente colocar algum conservador de verdade no STF. Se os senadores vão rejeitar sua indicação, nos dê pelo menos o gosto de ver.

O engraçado é que o mesmo cidadão que diz que soldado que vai para a guerra não pode ter medo de morrer parece estar com medo de ver o Senado rejeitar um indicado que represente seus valores. Nós não temos medo e temos muito mais disposição em continuar apoiando um presidente que dá a cara a tapa com uma indicação ideologicamente conservadora do que um que se acovarda antes mesmo da batalha.

6) Depois disso, o presidente passou a vergonha de nos questionar se queremos Kassio ou Moro. Em tom jocoso, ele perguntou: Vocês querem Sérgio Moro pro Supremo? Responde aí. Em primeiro lugar, eu nunca fui com a cara do Moro. Eu sei que muita gente gostava dele, mas antes mesmo de 2018 eu já conhecia o histórico de progressista do sujeito. Moro foi uma decepção e toda a população conservadora, cristã e de direita sabe disso. Mas o presidente perguntou como se nós tivéssemos sido os únicos enganados.

Não, senhor presidente. O senhor também foi enganado pelo Moro, lembre-se disso. Havia gente naquela época avisando sobre o alinhamento ideológico dele e ainda assim o senhor o quis em seu governo. Então, não pense que essa culpa não está em seus ombros também. Só que o povo sabe julgar que uma coisa é ser enganado por um canalha como Sérgio Moro, outra coisa é ser enganado pelo sujeito que foi contra a deportação de um terrorista, que parece ser contra a prisão na segunda instância e que tem mais de 30 reclamações no Conselho Nacional de Justiça por “sentar” sobre processos.

Enfim, Bolsonaro deu apenas maus argumentos para justificar sua indicação. Ele parece não entender que apesar de ter uma base muito consciente de que algumas vezes seu governo é forçado a fazer concessões desagradáveis para andar algumas casas, ela também tem limites e interesses muito bem definidos. Com isso, o presidente parece não entender que não se faz concessões no STF para ter o apoio do Centrão; mas se faz concessões ao Centrão para ter o STF.

Assim, espero que nosso presidente reconsidere sua indicação, tentando refletir na seguinte hipótese: suponha que cinco representantes ideologicamente alinhados com seu governo estivessem no Senado. Vamos supor que fossem Allan dos Santos, Silas Malafaia, Olavo de Carvalho, Abraham Weintraub e Oswaldo Eustáquio os senadores. Qual a chance de Kassio Nunes ser rejeitado por absolutamente todos eles? Fácil, né?

Viu só, senhor presidente? É muito fácil mostrar que o senhor fez uma péssima escolha. Ainda mais quando sabemos que os congressistas de sempre, os mornos, os mais do mesmo, os mancomunados com Alcolumbre, Toffoli e Mendes, apoiam o sujeito com unanimidade. E você? O que achou da indicação de Bolsonaro ao STF? Deixe sua resposta nos comentários e compartilhe o artigo até chegar naquele senhor do Palácio do Planalto.

Henrique Guilherme (Colunista) É escritor e apresenta o programa O Patriota: A Voz da Resistência. Ele é economista, mestre em Administração Pública e hipnoterapeuta. Também é pós-graduado em Administração de Empresas, Biotecnologia, Matemática e História Militar. Guilherme é geek, patriota, de direita e, principalmente, cristão. Ele dedica sua vida a derrotar as forças do mal e criou a série de livros Guia do Patriota para ajudar todos aqueles que buscam fazer o mesmo.

Henrique Guilherme
É escritor e apresenta o programa O Patriota: A Voz da Resistência. Ele é economista, mestre em Administração Pública e hipnoterapeuta. Também é pós-graduado em Administração de Empresas, Biotecnologia, Matemática e História Militar. Guilherme é geek, patriota, de direita e, principalmente, cristão. Ele dedica sua vida a derrotar as forças do mal e criou a série de livros Guia do Patriota para ajudar todos aqueles que buscam fazer o mesmo.

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