Crentefobia existe?

"O problema da fé evangélica está no ser humano e não em Deus ou nos Evangelhos de Jesus", diz pastor Carlito Paes, em sua nova coluna

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Nunca tinha ouvido a expressão “crentefobia” utilizada por Pedro Fernando Nery, articulista do Jornal O Estado de São Paulo, como título de sua coluna publicada no dia (04.02.20). Não se trata de um artigo religioso, mas de uma análise política e socioeconômica do Brasil atual, destacando diversos fatos recentes, e que me levou a concordar com sua opinião.  

Com quase 50 anos de idade, chego à conclusão de que sempre houve preconceito contra a fé evangélica, o que mudou nestas duas últimas décadas foram os argumentos. Quando vivia na década de 70 e 80 no interior do estado do Rio de Janeiro, costumava ouvir que “crente é feio, pobre, sem instrução e mora longe”. Hoje, ele é tido como “alienado, moralista, conservador de direita, brega e adepto à teologia da prosperidade”. Sou um cristão evangélico, pastor Batista e, sobretudo, um cristão, e sei claramente que os valores e princípios da fé evangélica bíblica, de um jeito e de outro, sempre incomodarão uma parcela da sociedade. Contudo, não sou um produto em uma garrafa para aceitar rótulos. A despeito dos motivos, existe sim preconceito contra os evangélicos, sempre houve e acredito que sempre haverá. Os valores Bíblicos quando praticados confrontam interesses econômicos, sociais e culturais! Mas não sou uma vítima e não terei vergonha da minha fé por causa do preconceito dos outros. A fé evangélica atravessa séculos, e sempre foi perseguida, mas segue triunfante e influenciadora! Sou apenas parte de mais um grupo que passa pelo pecado do preconceito dos homens, como existe também contra negros, pobres, mulheres, refugiados e outros. Como disse Paulo: “Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego” (Romanos 1:16).

O que a sociedade precisa é entender que o Brasil está mudando, também em matéria de fé. Dados estatísticos recentes mostram que 31% da população brasileira declara-se evangélica: estamos falando de mais de 70 milhões de brasileiros. E o novo senso que deve sair neste ano deve trazer um dado ainda maior sobre o número real de evangélicos no Brasil. O que estamos vendo, porém, é que diante das mudanças do atual governo federal em algumas questões de política pública, em especial nas áreas de educação, direitos humanos e saúde, percebemos que há os que querem colocar a sociedade contra os evangélicos, dizendo que estas são “políticas evangélicas”. Discordo.

O presidente nem evangélico é, sempre se declarou católico, é militar, conservador e de direita, e está fazendo um governo tal qual como prometeu. A população votou nele, justamente, porque queria mudar a linha que vinha sendo desenvolvida. Se ele mudasse de posição depois das eleições é que seria incoerente, apesar de ser algo bem cultural na política brasileira. Quem não votou nele e gostaria de governo liberal, precisará votar nas próximas eleições; assim funciona a democracia. Porém, ser contrário ao simples fato de o presidente escolher quatro ministros de seu governo que professam a fé cristã evangélica, tão somente porque a confessam, é uma postura que pode se caracterizar como discriminação e preconceito, ou, na expressão de Nery, “crentefobia”.

Percebo hoje que, cada vez mais, a incredulidade religiosa é saudada como racional e esclarecida, ao passo que a fé é rotulada como retrógrada e obscurantista, em especial a fé cristã. Para alguns não existe nenhum problema em desenvolver uma fé panteísta e acreditar em qualquer coisa; o problema é seguir Jesus Cristo como Senhor e Salvador e declarar a fé em Deus através da Bíblia.

Eu realmente gostaria de saber porque a fé em Deus incomoda um crescente número de pessoas, em particular, a fé monoteísta professada pelos cristãos. Por que o simples fato de uma pessoa ter sua cosmovisão influenciada pela existência de Deus incomoda e suscita até o ódio? Só posso entender isso por uma perspectiva espiritual. Por que ofende tanto uma declaração de um doutor em Educação, Professor Dr. Benedito Aguiar, novo presidente da CAPES e ex-reitor da Universidade Mackenzie, ao se posicionar como criacionista e adepto ao Design Inteligente? Por que a mídia deu tanta conotação negativa à nomeação do antropólogo Dr. Ricardo Lopes Dias como novo coordenador de indígenas isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai)? Só porque foi missionário? Se ele é um bom técnico ou não, especialista ou não, isto deve ser analisado, e não o fato de ser um evangélico!

Creio que parte das atuais críticas não vêm porque essas pessoas são evangélicas, mas porque aceitaram o desafio de ajudar a compor um governo de direita. Mas, fica a pergunta: eles não têm o direito de tentar ajudar?

Sei que num universo tão grande, existem irmãos evangélicos, alguns por ignorância e outros por más intenções, que agem de forma errada. É claro que existem evangélicos corruptos; já no primeiro ministério de Jesus com 12 homens, o tesoureiro Judas mostrou-se um ladrão. O problema não está na fé, mas no caráter de cada um. Generalizar, portanto, é sempre um grande erro e certamente revela preconceito.

Eu não me ofendo em quem crê na teoria da evolução como tese final para a criação dos seres vivos e do homem. Particularmente, creio na evolução e adaptação das espécies a partir da criação divina, mas cada um é livre para crer no que quiser. Liberdade e respeito são a base de qualquer sociedade avançada e não podemos aceitar a intolerância parcial.

A atitude antirreligiosa cristã não é nova na história da humanidade, especialmente no Ocidente. Desde a Grécia antiga, os primeiros relativistas da filosofia conhecidos como céticos e os primeiros humanistas liberais como os epicureus já tentavam minar a fé cristã. Há muito tempo, para alguns que não gostam da fé, a fé alheia é uma ofensa ao seu orgulho e prepotência.

O problema da fé evangélica está no ser humano e não em Deus ou nos Evangelhos de Jesus. Onde o homem está, existem tanto problemas como soluções. Ame e respeite a diversidade de fé e de expressão, e assim teremos uma sociedade melhor e mais justa, precisamos ser contrários à todos os tipos de preconceitos, e não seletivos, e elegendo apenas alguns mais “cult” e da moda pela sociedade! Somos contra todo preconceito e bullying!

Carlito Paes (Colunista) é pastor líder da Igreja da Cidade em São José dos Campos (SP), fundador da Rede de Igrejas da Cidade, da Rede Inspire e do Grupo Propósitos de Serviços Ministeriais que reúne 16 organizações. Bacharel e mestre em Teologia, palestrante internacional sobre liderança e autor de 30 livros. Casado com a pastora Leila Paes. É pai de quatro filhos e vive em São José dos Campos (SP) desde 1997.