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A velocidade das informações, a evolução das tecnologias e as relações humanas

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A tecnologia nunca ocupou tanto espaço em nossas vidas! Não é de se surpreender que este foi o tema abordado na redação do ENEM 2018, que desafiou os estudantes a organizarem um texto dissertativo-argumentativo sobre a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

É por causa da tecnologia que posso me sentar aqui, em frente ao meu computador, e falar com você que está lendo as minhas ideias neste momento. Talvez você não saiba quem eu sou e, talvez, nunca venhamos a nos conhecer, mas a tecnologia nos permite essa conexão, permite que eu imprima minha visão de mundo com um alcance muito maior do que se a compartilhasse em uma roda de amigos íntimos.

Apesar de a tecnologia ser um produto da ação humana, sempre que vejo os almoços em família tornarem-se um grande “encontro virtual de corpo presente”, me surge um questionamento sobre “quem está a serviço de quem” na relação entre tecnologia e seres humanos. Estaria a tecnologia servindo hoje ao conjunto dos seres humanos ou a humanidade vem sendo equipada para garantir o aumento da tecnologia e seu consumo?

Chegar a tal questionamento é proveitoso, pois significa que, em algum momento, sentimos falta de nossas conexões primordiais. E não me refiro aqui a conexão no sentido de estar “online”, pelo contrário, questionar-se significa que, em um dado momento, o ser humano sente a necessidade de restabelecer suas conexões interpessoais e da troca de experiências com os demais, de uma reaproximação com a natureza ou com aquilo que é natural, e de colocar a intervenção tecnológica em segundo plano, a serviço da humanidade, como penso que deve ser.

Isso não quer dizer que a tecnologia, em si, seja uma vilã das relações humanas. Ainda que tenha potencial para ser poderosa, a tecnologia por si só não será nada se a criatividade humana não a trouxer à realidade. Todo o potencial de sua criação está no homem. É como uma semente que tem potencial para ser uma árvore frondosa e frutífera, mas que, se não for plantada em solo fértil, adubada e regada, nunca existirá. Cabe ao ser humano delimitar qual será o protagonismo da tecnologia em sua própria realidade. Para isso, é necessário haver equilíbrio nessa relação homem versus tecnologia.

Há não muito tempo atrás, as pessoas se davam ao prazer de visitar parentes e amigos, mesmo em terras mais distantes, proporcionando mutuamente o prazer e a alegria do convívio familiar, além de fortalecer os laços de amizade. Com os constantes avanços tecnológicos, é fato que temos cada vez mais conforto, mas também temos cada vez mais distanciamento entre as pessoas. Às vezes, tenho a nítida percepção de que nossos sentidos e sensações também mudaram, como uma evolução natural, para nos adaptar a esses avanços. Um fator que evidencia isso é o famoso WhatsApp, ferramenta de uso simples e uma das mais utilizadas hoje no mundo para a comunicação humana. Trocamos o “olho no olho” e o “frio na barriga” proporcionado pelo toque humano por outro sentido: o escutar, que é diferente de ouvir. Escutar um áudio, enquanto se fala e se faz outras tarefas, sem prestar muita atenção ao que está sendo dito. Responder, também em meio a outras tarefas, quase no modo automático, sem prestar muita atenção ao que está sendo dito. Antes, o toque acompanhado da troca de olhares gerava emoção, nos revirava por dentro. Hoje, um simples áudio tem esse mesmo poder.

O mundo se tornou imediato, instantâneo, “miojo”. E isso nos modificou. Ficamos impacientes, intolerantes e melindrosos. Se não for “pra já”, não serve. Isso se aplica ao pedir comida pela internet e se estende às relações humanas nas suas mais variadas formas.

A carta que demorava meses para chegar, foi substituída por uma mensagem instantânea que, enviada, chega imediatamente ao seu destinatário. Entenda: às vezes, não era a carta que trazia a mensagem final a quem estava a sua espera, mas a espera pelo recebimento era o que produzia ensinamentos enriquecedores. A espera dava tempo para sentimentos se consolidarem. A espera aplacava a raiva, acalmava os ânimos. Quantas relações seriam poupadas hoje em dia se as coisas não fossem tão imediatas!

Trazendo à tona essa discussão de forma saudável e proveitosa, sobre o equilíbrio que falei antes, é certo que os recursos tecnológicos facilitam a vida, porém tudo em excesso pode trazer perigo para a humanidade e seu equilíbrio. Então, o que podemos refletir sobre isso? A tecnologia deve ser deixada de lado? As relações entre as pessoas estão comprometidas a ponto de serem substituídas pela criação de “ciberespaços” onde se projeta um mundo irreal, transformando até mesmo o ambiente familiar em um “bate-papo” de celular? Vamos com calma! Quem deve especificar essas regras somos nós e isso é um exercício diário que começa no cerne da família! Não é na internet que as crianças devem aprender desde cedo a importância dos relacionamentos reais, dos valores e do poder curador que as relações humanas têm.

Uma amiga da minha irmã costuma dizer que “pessoas fazem pessoices”. Hoje em dia, nos tornamos tão dependentes da tecnologia que temos dificuldade em fazer “pessoices”, ou seja, temos dificuldade em realizar nossas atividades meramente humanas: Conversar, relaxar, descansar, rir, desfrutar de momentos de lazer. Enfim, nada mais parece existir sem tecnologia. Até a “fofoca” e os “boatos” (fake news) passaram para o meio digital!

É preciso entender que a função principal da tecnologia deve ser retomada e utilizada como MEIO FACILITADOR das tarefas do cotidiano e das relações humanas, justamente para que possamos usufruir do nosso tempo, aproveitando a companhia daqueles que fazem parte de nossas vidas, com equilíbrio e harmonia. Censurar a tecnologia porque não temos delimitado como deve ser nossa relação com ela, causaria profunda rejeição e retrocesso. Porém, administrá-la não só é a solução como é nosso papel diante dessa realidade.

Vale lembrar: a tecnologia está aí para nos servir e não para nos escravizar. Pense na grandeza do ser humano! Somos criadores no mundo natural (ou cocriadores se considerarmos a divindade). Nós criamos as tecnologias a as utilizamos para nosso conforto e bem-estar.

Devemos dominá-la e não sermos dominados por ela.

Raquel A. Cardoso (Colunista) Com mais de 10 anos de experiência em Tecnologia da Informação, é Diretora Comercial e de Tecnologia da Infosolo e Diretora Operacional da Logo Aceleradora, também é uma diletante e entusiasta da escrita, imprimindo uma nova perspectiva sobre a vida através de suas crônicas.

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