A chatice de uma vida de obrigações

O psicoterapeuta, Otávio Guimarães, questiona: Imagina você viver achando que quase tudo o que você faz é um dever?

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Reprodução/Unsplash

Nos meus atendimentos no consultório, constantemente me deparo com pessoas que falam muito sobre o que “tem” que fazer: “eu tenho que continuar casado”, “eu tenho que arrumar minha casa”, “tenho que estudar”, e por aí vai. Isso me passa a impressão de que a vida dessas pessoas é um dever constante, uma obrigação: afinal de contas, elas “têm” que fazer um monte de coisas.

Acaba que a vida se torna um peso, do qual se tenta aliviar. Não me é estranho saber que quem fala desse jeito está muito estressado, cansado e às vezes perto de ter um ataque de nervos. Imagina você viver achando que quase tudo o que você faz é um dever?

Não é à toa que muita gente recorre a subterfúgios, isto é, a um contexto de fuga para alívio. Durante a primeira revolução industrial – e de certa forma, isso persiste até os dias de hoje – o que havia ao redor dos centros comerciais e industriais? Bares e casas de prostituição. E por quê? Segundo o grande psicólogo Rollo May, “Os que vivem uma existência vazia suportam a monotonia somente com uma explosão ocasional – ou pelo menos identificando-se com a explosão de alguém”.

O problema é que esse alívio é passageiro, porque logo a pessoa volta à sua vida de obrigações e se vê oprimida novamente. Esse subterfúgio pode ser comida, álcool, sexo, drogas e várias outras coisas. No início se começa a consumir em pequena quantidade; mas no decorrer do tempo se aumenta o consumo porque já não tem mais o mesmo efeito.

Mas talvez você me diga: “eu não posso abandonar tal coisa”, “o que seria de mim se deixasse de cumprir esse dever?” e por aí vai. Eu não estou te dizendo para largar tudo que você considera um dever, uma obrigação. Na verdade, você precisa fazer duas coisas: a primeira delas é mudar a maneira como enxerga sua própria vida.

Mude a forma como você fala e pensa a respeito de suas atividades. Evite falar “eu TENHO”. Ao invés disso, diga eu escolho, eu quero, eu desejo. Pode parecer uma mudança boba, mas para o nosso cérebro é muito significativa: à medida que você fala que tem que fazer algo, o cérebro manda uma mensagem dizendo que a tarefa a realizar é desagradável, desanimadora. A partir do momento em que você diz que quer, que deseja, que escolhe, o cérebro associa isso a algo bom, agradável e, portanto, prepara a sua mente e corpo para sensações prazerosas, boas.

Até as áreas do cérebro que processam as informações são diferentes! Quando você entende que algo é uma obrigação, as áreas responsáveis são aquelas associadas ao autocontrole e à disciplina pessoal. Quando você entende algo como desejo, as regiões ativadas são as relacionadas aos gostos e necessidades. Imagina qual dessas áreas dá maior prazer?

Já que você considera esses momentos como obrigação, por que não aproveitar e usufrui-los da melhor forma possível? Você queria sair na sexta-feira à noite, mas terá que ficar com as crianças. Por que ao invés de reclamar e achar ruim você não gasta sua energia pensando em como passar o tempo da melhor forma possível?

Uma segunda questão é pensar e, por conseguinte, realizar atividades que lhe dão prazer. Faço muito essa pergunta no consultório: “o que você gosta de fazer? O que lhe dá prazer? O que faz com que você perca a noção do tempo?”. Poucas pessoas conseguem responder a essas perguntas. Se você não sabe o que te dá força, o que te traz tranquilidade, o que é prazeroso, como você vai recarregar suas energias para lidar com as dificuldades do dia a dia? A depressão surge em decorrência, entre outros fatores, de uma bateria emocional descarregada: é como se a pessoa tivesse sua energia emocional na reserva e, por isso, não tem mais disposição, não tem mais entusiasmo.

Ah, e essas atividades prazerosas devem ser frequentes. Não adianta dizer que viajar recarrega sua energia se você viaja uma ou duas vezes ao ano. Devem existir atividades que possam ser realizadas FREQUENTEMENTE.

Meu objetivo é que você preste mais atenção a si mesmo e, principalmente, às suas necessidades. Talvez você ainda não saiba o que te dá prazer, mas quero te incentivar a pensar mais a respeito e a experimentar atividades que possam gerar emoções positivas.


Otávio Guimarães (Colunista) É psicólogo e psicoterapeuta. Ajuda pessoas a se encontrarem na vida e obterem dela mais satisfação.
Instagram: @psiotavioguimaraes