2020 a 2030 – A década da maior revolução já vista na história da humanidade

Se essa revolução tecnológica não vier para trazer mais abundância para o mundo e seus habitantes, estaremos simplesmente desperdiçando a maior oportunidade de todos os tempos de transformar nosso planeta numa “casa” melhor!

Reprodução/Tilt

Há poucos dias, o governador da Califórnia, estado dos EUA com maior PIB, sancionou uma lei que obriga os aplicativos de transporte (Uber, Lyft, Cabify) a contratarem os motoristas como funcionários. Segundo a lei, trabalhadores que têm seu desempenho ou ofício controlados pela empresa, ou fazem parte do negócio habitual da mesma, devem ser considerados funcionários com direitos mínimos assegurados, e não terceirizados. Tome-lhe polêmica! Ainda mais em se tratando do lugar onde essa modalidade nasceu e mais: berço da grande revolução econômica que estamos vivendo neste início de século.

Não se engane, sou totalmente a favor da livre iniciativa e um grande entusiasta da novas modalidades de economia (compartilhada e colaborativa). Enquanto fui secretário das pastas do Trabalho e depois Ciência, Tecnologia e Inovação do DF, lutei, de maneira inconteste, pela legalização dos aplicativos de transporte individual de passageiros. Fomos o primeiro estado do país a autorizar essa nova modalidade de transporte e geração de oportunidade de trabalho para muitos. Antes de nós, só o município de São Paulo havia aprovado o uso, e nossa regulamentação abriu a discussão para outros estados, culminando no nosso Congresso Nacional! Tenho muito orgulho de ter feito parte da batalha contra modelos retrógrados e ultrapassados que brigavam por “reserva de mercado”. E vencemos! Ganhou o usuário, que recebeu uma nova modalidade de transporte, em que ele tem o poder de avaliação verdadeira. Se você presta um mau serviço, corre o risco de perder a “licença” para atuar nesse tipo de plataforma. Ganharam milhares de pessoas que, em épocas de dificuldade de oportunidade de trabalho, puderam encontrar nesse tipo de plataforma um “ganha-pão”. Então está bom pra todo mundo, né? Há quem discorde, e isso tem gerado discussões enormes sobre um tema que surgiu ainda “ontem”. E essa é só uma das milhares discussões pelas quais iremos passar na próxima década.

Ainda teremos questões de teletrabalho, inteligência artificial, drones autônomos de delivery, aplicativos de delivery, veículos autônomos, impressoras 3D e lojas que não irão precisar de mão de obra humana alguma para funcionar. Isso só para citar alguns exemplos da extensa lista que tenho em mente. Há grandes “poréns” por detrás dessas discussões, no entanto.

O cerne da discussão na Califórnia, defendido por muitos, se trata de
“humanidade”. Claro, não sou ingênuo a ponto de não achar que existiram questões políticas, como por exemplo o governador agradar uma classe de eleitores pensando em sua reeleição. Mas deixando isso um pouco de lado, havia reclamações sérias por parte de motoristas dos aplicativos em relação a trabalho “versus” distribuição de lucros. Uma característica desse tipo de negócio consiste em a empresa possuir uma “plataforma” (por vezes tecnológica, mas nem sempre) que faz o cruzamento de demanda “versus” oferta. Exemplos? Apps de transporte e de delivery, sites de oferta de microcrédito (lembra que escrevi sobre o Kiva?) e até mesmo sites de oferta de hospedagens (Airbnb e Couchsurfing, do qual ainda irei falar). A plataforma fica com uma percentagem do serviço prestado, quando é feito o uso dessa plataforma pelo prestador do serviço. Óbvio, né? Porém, naquele estado americano, começaram a existir motoristas que não estavam conseguindo viver minimamente de forma digna.

Relatos até mesmo de motoristas de aplicativos que estavam morando dentro dos próprios carros por não terem condições de pagar um aluguel (a Califa tem aluguéis astronômicos, pesquise sobre), além de outras situações bastante complicadas. Alguns pensarão que é uma questão de “mimimi” ou de gente que está com preguiça de “correr atrás”. Creio que há casos e casos. Mas o fato é, passaremos por muitas discussões sobre a nossa “humanidade”. A discrepância de abundância “versus” escassez não pode continuar a escalar a “montanha”. A Uber e suas concorrentes estão ganhando muito dinheiro, isso é fato. Eles merecem! Tiveram uma ideia brilhante e inovadora. Mas qual o custo disso pra milhares de “trabalhadores” que ralam bastante, arcam com todos os custos da prestação do serviço (prestação do carro, seguro, combustível, danos por batidas, manutenção do veículo e por aí vai…) e ainda deixam limpinho algo em torno de 20 a 25% para a plataforma? Eu não tenho uma resposta definida para essa questão, e não sei se você, leitor, já tem opinião formada. Mas a discussão está posta! E é só o começo, acreditem! Vem muita coisa por aí ainda.

Mas essa questão lá na Califórnia me fez pensar na nossa “humanidade”, que, segundo o dicionário, pode ser: 1 – “conjunto de características específicas à natureza humana”; ou a que mais gosto: 2 – “sentimento de bondade, benevolência, em relação aos semelhantes, ou de compaixão e piedade em relação aos desfavorecidos”.

Isto é o que nos difere tanto dos animais como das máquinas. Preocupa-me que a revolução tecnológica com boas ideias se torne extremamente lucrativa, mas faça com que percamos nossa “humanidade”. Viva o lucro e os empreendedores que “empurram” o mundo para frente, sem dúvidas! Terão sempre minha torcida e meu aplauso entusiasmado.

Mas lembremos da maior característica que nos faz humanos: nossa “humanidade”! Se essa revolução tecnológica não vier para trazer mais abundância para o mundo e seus habitantes, estaremos simplesmente desperdiçando a maior oportunidade de todos os tempos de transformar nosso planeta numa “casa” melhor!!!

Até a próxima!

Thiago Jarjour (Colunista) Vice-presidente da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas e Embaixador da Campus Party. Ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Distrito Federal