Durante os anos do governo Bolsonaro e até mesmo após sua saída, seus apoiadores repetiam que seguiriam firmes ao lado do maior líder da direita brasileira. Cansei de ouvir frases como: “Se Bolsonaro indicar um cachorro caramelo, é nele que vou votar”.
Mas bastou Bolsonaro ser retirado completamente do centro do jogo político pelo STF para parte dessas pessoas mudar o discurso.
Sem a presença constante do líder, ficou mais fácil subverter a ordem natural da corrida eleitoral. Muitos passaram a defender apenas aquilo que lhes convém politicamente.
Parte do eleitorado começou a desconfiar de tudo e de todos, enquanto setores da própria base passaram a agir de forma desorganizada. Isso ficou evidente nas brigas públicas, nas trocas de farpas entre aliados e até entre os próprios filhos de Bolsonaro, que representam diretamente as estratégias do grupo político.
E honestamente? Para quem realmente entende política, isso não deveria causar espanto.
A população está cada vez mais interessada em política, mas “acompanhar política” não significa compreender o jogo político. E é justamente aí que discursos inflamados e emocionalmente convenientes conseguem manipular a opinião pública com facilidade.
Política real não é feita de likes ou aplausos. Política é estratégia.
A direita cresceu, ocupou espaços e hoje está muito mais organizada do que anos atrás. Mas ainda não é maioria absoluta. E democracia funciona com maioria, articulação e construção de base.
Negociação é a arte de compatibilizar interesses diferentes para alcançar um objetivo maior.
Agradar a todos nunca foi o objetivo da política. O objetivo é conquistar espaço, garantir governabilidade e viabilizar decisões.
Nesse contexto, Eduardo Bolsonaro tomou uma decisão que contrariou parte da militância e até políticos da própria base ao indicar André do Prado ao Senado, em vez de apostar em nomes mais populares ou óbvios.
Mas política não se vence apenas com popularidade de internet. Bastidor, influência e construção de alianças importam.
Ao costurar esse acordo, Eduardo pode recolocar seu grupo político no centro do jogo mesmo diante das restrições impostas pelo STF. E o cenário vai muito além de 2027.
Com Flávio Bolsonaro avançando nas pesquisas e aparecendo competitivo em cenários de segundo turno, a estratégia parece mirar não apenas a próxima eleição, mas também a consolidação de uma base sólida para governabilidade futura.
E é aqui que muita gente não consegue enxergar além da própria paixão política.
A suplência no Senado não depende de voto popular. É uma escolha política. E isso muda completamente o peso de uma articulação.
Ao indicar André do Prado, Eduardo Bolsonaro pode estar construindo muito mais do que uma simples composição eleitoral. Pode estar costurando um acordo de longo prazo com setores estratégicos do centrão, garantindo sustentação política não apenas para 2027, mas também para os anos seguintes.
Na política, alianças raramente terminam na eleição. Elas normalmente envolvem apoio institucional, presidência de comissões, influência em pautas, cargos de governo, estrutura partidária e acordos futuros.
E isso importa porque, gostem ou não, o centrão ainda é quem possui grande parte do controle operacional do Congresso Nacional.
Hoje, o Senado e a Câmara são formados majoritariamente por partidos que se alinham conforme seus interesses políticos e institucionais. PP, União Brasil, Republicanos, MDB, PSD e outros partidos não atuam movidos por militância ideológica. Atuam por espaço, influência e poder.
Foi exatamente assim que Lula conseguiu governar. Mesmo eleito com um discurso ideológico forte, Lula precisou entregar ministérios, cargos e espaço político para partidos do centrão a fim de garantir sustentação no Congresso.
Sem isso, ele simplesmente não governaria. As maiores derrotas do governo começaram justamente quando essa articulação enfraqueceu.
Quando parte do centrão deixou de acompanhar integralmente o governo, Lula passou a enfrentar derrotas históricas em pautas importantes, dificuldades em votações estratégicas e resistência até mesmo em indicações consideradas prioritárias pelo Planalto.
Um exemplo claro disso foi a rejeição de Jorge Messias para o STF, algo que não acontecia no Brasil há 132 anos. O governo passou a enfrentar dificuldades até mesmo para consolidar apoios em pautas e articulações institucionais consideradas essenciais.
No presidencialismo brasileiro, nenhum governo se sustenta apenas com apoio popular ou militância ideológica.
Governabilidade depende de articulação, composição e construção de maioria dentro do Congresso.
Não existe “chapa pura”, isolamento político ou governo sustentado apenas por apoio popular enquanto o Congresso continuar tendo a composição atual.
Gostar ou não de certas alianças é uma coisa. Mas fingir que elas não são necessárias é outra completamente diferente.
Política não é sobre satisfazer os desejos das pessoas.
Política é acúmulo de força e instinto de sobrevivência. É o poder real traduzido em atitudes, não em palavras. No tabuleiro das instituições, quem não governa com firmeza não apenas perde o comando, mas acaba devorado pelo próprio sistema.
Tay Pellegrini – Mãe, esposa, empresária. Conservadora, cristã, pró-vida. Liberdade até para quem discorda. Falo de política sem enrolação.